A aquisição do espírito crítico e o desenvolvimento do vocabulário parecem ser à primeira vista, dois dos principais efeitos da leitura sobre o indivíduo. No entanto, apesar de reconhecê-los como atributos ou consequências naturais do ato de ler, acrescento um terceiro sem o qual toda e qualquer leitura que eu faça com meus alunos parece ficar incompleta. Trata-se da criação. A leitura é essencial para a compreensão do escrever, ou seja, só quando leio o texto literário e este me estimula a escrever ou criar a partir dele, é que o círculo se fecha.
O mundo ficcional, a imagem poética, como vimos a partir de sua ambiguidade,
estimulam o imaginário de forma que, ao ler, me transformo em co-autora;
escrevo com o autor uma outra e a mesma história na minha imaginação. Esta
transformação se dá ao nível da reflexão – sou autora da casa descrita no
texto, dos trejeitos da personagem, da rua, cidade onde se passa os acontecimentos
– e ao nível da criação no momento em que objetivo minha história, no momento
em que escrevo. O ciclo do prazer se fecha: agora, também eu escrevi uma
história, um poema, um texto objetivo etc.
Esta intimidade com a criação a que me leva a leitura, me faz compreender
melhor o ato de escrever e chego com Frank Smith a conclusões bastante
interessantes:
a) Redigir
pressupõe o saber ler, mas a leitura pode prescindir do escrever embora a
atividade redacional ofereça pistas ou atalhos à compreensão de alguns aspectos
da leitura.
b) A
despeito da enorme ênfase na alfabetização e dos esforços (pressões) das
escolas em promoverem a alfabetização, as escolas não são lugares adequados
para se aprender a escrever e a ler.
c) O
escrever e o ler não deveriam ser ensinados, pelo menos não como matérias ou
disciplinas escolares... o que os aprendizes precisam é saber como a redação e
a leitura fazem sentido em suas vidas.
O texto é polêmico, principalmente a
segunda afirmativa, pois todos nós sabemos que é na escola que as crianças
iniciam seu aprendizado de leitura. Mas, segundo observei, Frank Smith não está
sozinho. Ruth Rocha, conhecida autora de livros infantis e infanto-juvenis, em
entrevista à revista semestral da Associação de Leitura do Brasil afirma também
que é na escola que a maioria das crianças desenvolve a capacidade de ler, mas,
segundo ela, em vez de matéria obrigatória, a leitura deveria ser transformada
em atividade artística:
Eu
acho que é uma coisa que tem duas faces, como tudo no mundo tem direito e
avesso. Por um lado, eu acho que a escola é, às vezes, a única oportunidade que
as crianças têm de entrar em contato com a leitura. Se a gente contar o número
de crianças que lêem ou que tiveram acesso à leitura a gente vai ver que um
grande número teve acesso à leitura através da escola. Por outro lado, a
leitura não ser selecionada, vamos dizer, na base do que ela tem de “mensagem”.
A leitura deveria ser posta na escola
como uma atividade e não como uma lição, como uma aula, como uma tarefa (grifo
meu). O texto não deveria ser usado, por exemplo, para a aula de gramática, a
não ser que fosse usado de uma maneira criativa, muito engraçada, muito
interessante. Por que, se assim não for, faz com que a leitura fique parecendo
uma obrigação, uma tarefa e aquela velha frase de Monteiro Lobato – “É capaz de
vacinar a criança a criança contra a leitura para sempre.”
Trata a leitura como uma atividade
artística. Talvez esta seja a forma de não vacinar as crianças contra ele. E é
também minha proposta enquanto professora da língua. Sempre que leio ou
apresento um texto a meus alunos, de alguma forma concluímos a leitura com uma
produção escrita por eles, seja ela feita em grupo, seja feita individualmente.
Para Moacir Gadoti também o ato de ler
é incompleto sem o ato de escrever. Como ele mesmo diz:
O ato
de ler é incompleto sem o ato de
escrever . um não pode existir sem o outro. Ler e escrever não apenas
palavras, mas ler e escrever a vida , a história. Numa sociedade de privilegiados
a leitura e a escrita são um privilegio. Ensinar o trabalhador apena a escrever
o nome ou assiná-lo na carteira profissional, ensiná-lo a ler alguns letreiros
na fábrica como perigo, atenção, cuidado (grifos
meus), para que ele não provoque algum acidente e ponha em risco o capital do
patrão não é suficiente... não basta ler a realidade. É preciso escrevê-la.
Pensando então na leitura como uma
atividade também de criação, e no prazer que produzir textos dá ao individuo, é
que sempre optei pela escrita como complemento da leitura.
Ensinar ao meu aluno o prazer de criar
– e aqui criar não se refere tão-somente ao ineditismo daquilo que se produziu,
mas ao fato de poder colocar a realidade em movimento, a roubar fagulha do fogo
divino como o mito de Prometeu sugere – é o que considero função fundamental no
ato de ensinar a ler.
Leitura: uma
aprendizagem de prazer – Vargas, Suzana, 4ª edição, 2000 – Ed.José Olympio R.J. Texto
págs. de 12 a 15.
Postado por: Maria Magalhãaes







