O Teatro de Gil Vicente
A
Literatura analisa o teatro do ponto de vista do texto. Os demais coadjuvantes
da arte teatral. A interpretação dos atores (que sozinhos, e sem pronunciar
palavra poderiam representar um ato considerado teatral, já que o teatro é
antes uma arte física que verbal), o cenário, os figurinos, a musica de fundo,
a iluminação etc. – não são de relevância para a análise literária.
Os
primeiros registros literários do teatro encontram-se na tradição grega. Como
vimos, o respeito às três unidades do teatro (tom, tempo e espaço) fazia com
que a ação fosse precipitada para o seu final. O espectador era enredado numa
trama que estava prestes a se resolver, pois o tempo de encenação deveria
corresponder ao tempo dos fatos encenados. Os componentes anteriores da trama e
do conflito eram comunicados ao espectador por meio da fala das personagens ou
ele deveria ter um conhecimento prévio dos fatos. Quando a peça tinha inicio,
os fatos já estavam próximos das resoluções.
Em seu brilhantismo e esplendor, o teatro grego não deixa de ser, de
certo modo, um ato extremo. O público tinha que estar educado para ele.
No
teatro vicentino isso não acontece. Gil Vicente faz uma arte popular, mas com
tal valor, talento e graça que puderam e podem apreciá-la tanto o individuo da
aristocracia como o do povo. Esse dramaturgo era tão especial que o seu
contemporâneo, Garcia de Resende, organizador do Cancioneiro Geral, menciona-o
em versos.
E vimos
singularmente ele foi o que inventou
Fazer
representações isto cá, e o usou
De estilo
muito eloquente, com mais graça e mais doutrina,
De mui
novas invenções posto que Juan Del Encina
E feitas
por Gil Vicente o pastoril começou.
Gil Vicente era considerado por seus
contemporâneos o iniciador do teatro em Portugal (“ele foi o que inventou isto
cá”), tendo deslumbrado até mesmo aqueles que já conheciam Juan Del Encina. Há
noticias de certas encenações teatrais, sobretudo de caráter religioso,
anteriores a Gil Vicente, sem, entretanto, registro documental. Tudo indica ter
sido ele o introdutor da arte teatral em sua totalidade. E o fez de maneira bem
interessante: em 1502, em dia após o nascimento do futuro rei D. João III,
invadiu a câmara vestido de camponês e, acompanhado de alguns figurantes
vestidos de pastores, recitou para a rainha o célebre Monólogo do Vaqueiro, que
mais tarde seria conhecido como o Auto da
Visitação. D. Leonor, avó do recém-nascido, ficou tão empolgada com a
novidade que lhe recomendou a repetição do ato numa próxima festa. Ele compôs
outro auto para aquela ocasião, e assim começou sua carreira de dramaturgo.
A proteção real foi uma constante na
sua vida, mas o convívio com esse meio culto não o levou a assimilar de maneira
significativa o resgate da herança greco-romana, tão em voga em seu tempo.
Manteve-se bem preso às tradições medievais e fez, antes de tudo, um teatro de
tom didático-moralizante, enraizado no teocentrismo e na ideia da salvação da
alma. Se de um lado seu teatro ascendia às virtudes cristãs como objetivo a ser
alcançado, de outro descia às entranhas de sua sociedade para focalizá-la com
humor e senso crítico. Do parvo ao clérigo devasso, todos foram feridos pela
lâmina intuitiva de seu olhar, e flagrados num momento de naturalidade
reveladora. Apesar de suas personagens serem planas, sem profundidade
psicológica, elas tocam a universalidade de aspectos psicológicos
significativos que havia naquele tempo, bem como os valores prezados ou
repelidos por aquela sociedade.
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Observação
encontrada no prefácio á 2ª edição de Obras Primas do Teatro Vicentino de
Segismundo Spina São Paulo/Rio de Janeiro, Difel, 1975.
Juan
Del Encina é um célebre autor castelhano de autos pastoris. Essa menção de
Garcia de Resende prova que ele não a fez por simples deslumbramento diante da
arte teatral, mas que ele já conhecia o teatro de Juan Del Encina autor de
indiscutível qualidade.
Parvo:
individuo com alguma perturbação mental.
Há basicamente, três tipos de
personagens planas vicentinas, embora qualquer uma delas possam ser enquadradas
em mais de uma categoria:
a) Personagens típicas: Tipos extraídos do cotidiano, representativos,
estereótipos dos vários segmentos sociais, como o sapateiro, o fidalgo, o
clérigo pecador, o escudeiro, o juiz, a adúltera, a freira, o ladrão, o
camponês etc.
b) Tipos fantásticos: Seres que se originam da imaginação, da
religiosidade mítica, como santos, anjos e demônios, estações do ano, deuses
pagãos etc.
c) Tipos alegóricos: Personagens que representam instituições (coo a
Igreja de Roma), vícios ou virtudes da sociedade. Por vezes, tais personagens
confundem-se com as fantásticas. O Anjo e o Demônio, da peça Auto da Barca do Inferno, são, ao mesmo
tempo, fantásticas, já que pertencem ao imaginário popular e simbolizam,
respectivamente, o Bem e o Mal.
Há inúmeras tentativas de classificar
as peças de Gil Vicente em categorias ou tipos. Segismundo Spina, em prefácio
ao volume Obras-Primas do Teatro
Vicentino, divide-as em quatro categorias:
a)
Autos: Palavra que designava
genericamente peças de teatro. Em Gil Vicente os autos versam sobre temas
tradicionais de caráter religioso-moralizante ou pastoris: Auto Pastoril Castelhadno (1502), Auto dos Reis Magos (1503), Auto da Fé (1510), Autos das Barcas (1517/18 – comporta a Trilogia das Barcas: Auto da Barca do Inferno, Auto da Alma, chamado
impropriamente por alguns de Auto da
Barca do Purgatório,e Auto da Glória),
Auto de Mofina Mendes (1534), entre
outros.
b)
Teatro romanesco: Teatro cujos temas
foram extraídos das novelas de cavalaria: Comédia
de Rubena (1521), Comédio do Viúvo (1524),
Amadis de Gaula (1533), entre outras.
c)
Fantasias alegóricas: Nelas, as
personagens representam instituições, íicios e virtudes sociais: Nau de Amores (1527), Auto da Lusitânia, entre outras.
d)
Farsas: Peças de episódios, geralmente
de caráter cômico, que apresentam um tipo social ou uma série deles: Farsa do Velho da Horta (1512), Quem
tem farelos (1515), Inês Pereira (1523),
Juiz da Beira (1525), entre outras. A
farsa de Inês Pereira apresenta um incidente curioso: foi feita a partir de um
desafio lançado ao autor – um desafeto seu o acusou de plágio. Ele então pediu
ao sujeito que lhe desse um tema e que, a partir dele, faria uma peça. O mote
dado foi: “mais quero um asno que me carregue, que um cavalo que me derrube”.
Inês Pereira é a resposta ao desafio.
O
teatro vicentino é todo escrito em linguagem simples, em versos,
predominantemente redondilhos maiores.
Há pouca documentação sobre Gil
Vicente. Não sabemos com exatidão nem as datas de seu nascimento e morte. O ano
que se convencionou dizer ser o de seu nascimento é o de 1465, e o de sua
morte, por volta de 1537. Morreu antes de compilar suas obras, tarefa que coube
a seu filho Luís Vicente, que retocou e reuniu as peças num volume chamado Compilaçam de Todalas Obras de Gil
Vicente, em 1562. Este trabalho é, no entanto, incompleto: faltam-lhe peças
proibidas pela censura da Igreja e outras publicadas mais tarde; além do
resgate impossível daquelas que foram escritas, encenadas e perdidas no tempo.
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