segunda-feira, 6 de julho de 2015

Teatro de Gil Vicente

O Teatro de Gil Vicente


A Literatura analisa o teatro do ponto de vista do texto. Os demais coadjuvantes da arte teatral. A interpretação dos atores (que sozinhos, e sem pronunciar palavra poderiam representar um ato considerado teatral, já que o teatro é antes uma arte física que verbal), o cenário, os figurinos, a musica de fundo, a iluminação etc. – não são de relevância para a análise literária.
Os primeiros registros literários do teatro encontram-se na tradição grega. Como vimos, o respeito às três unidades do teatro (tom, tempo e espaço) fazia com que a ação fosse precipitada para o seu final. O espectador era enredado numa trama que estava prestes a se resolver, pois o tempo de encenação deveria corresponder ao tempo dos fatos encenados. Os componentes anteriores da trama e do conflito eram comunicados ao espectador por meio da fala das personagens ou ele deveria ter um conhecimento prévio dos fatos. Quando a peça tinha inicio, os fatos já estavam próximos das resoluções.  Em seu brilhantismo e esplendor, o teatro grego não deixa de ser, de certo modo, um ato extremo. O público tinha que estar educado para ele.


No teatro vicentino isso não acontece. Gil Vicente faz uma arte popular, mas com tal valor, talento e graça que puderam e podem apreciá-la tanto o individuo da aristocracia como o do povo. Esse dramaturgo era tão especial que o seu contemporâneo, Garcia de Resende, organizador do Cancioneiro Geral, menciona-o em versos.

E vimos singularmente                             ele foi o que inventou
Fazer representações                                isto cá, e o usou
De estilo muito eloquente,                                   com mais graça e mais doutrina,
De mui novas invenções                          posto que Juan Del Encina
E feitas por Gil Vicente                              o pastoril começou.           

Gil Vicente era considerado por seus contemporâneos o iniciador do teatro em Portugal (“ele foi o que inventou isto cá”), tendo deslumbrado até mesmo aqueles que já conheciam Juan Del Encina. Há noticias de certas encenações teatrais, sobretudo de caráter religioso, anteriores a Gil Vicente, sem, entretanto, registro documental. Tudo indica ter sido ele o introdutor da arte teatral em sua totalidade. E o fez de maneira bem interessante: em 1502, em dia após o nascimento do futuro rei D. João III, invadiu a câmara vestido de camponês e, acompanhado de alguns figurantes vestidos de pastores, recitou para a rainha o célebre Monólogo do Vaqueiro, que mais tarde seria conhecido como o Auto da Visitação. D. Leonor, avó do recém-nascido, ficou tão empolgada com a novidade que lhe recomendou a repetição do ato numa próxima festa. Ele compôs outro auto para aquela ocasião, e assim começou sua carreira de dramaturgo.

http://www.teatro-dmaria.pt/fotos/galerias/D.duardos.jpg


A proteção real foi uma constante na sua vida, mas o convívio com esse meio culto não o levou a assimilar de maneira significativa o resgate da herança greco-romana, tão em voga em seu tempo. Manteve-se bem preso às tradições medievais e fez, antes de tudo, um teatro de tom didático-moralizante, enraizado no teocentrismo e na ideia da salvação da alma. Se de um lado seu teatro ascendia às virtudes cristãs como objetivo a ser alcançado, de outro descia às entranhas de sua sociedade para focalizá-la com humor e senso crítico. Do parvo ao clérigo devasso, todos foram feridos pela lâmina intuitiva de seu olhar, e flagrados num momento de naturalidade reveladora. Apesar de suas personagens serem planas, sem profundidade psicológica, elas tocam a universalidade de aspectos psicológicos significativos que havia naquele tempo, bem como os valores prezados ou repelidos por aquela sociedade.

__.__

Observação encontrada no prefácio á 2ª edição de Obras Primas do Teatro Vicentino de Segismundo Spina São Paulo/Rio de Janeiro, Difel, 1975.
Juan Del Encina é um célebre autor castelhano de autos pastoris. Essa menção de Garcia de Resende prova que ele não a fez por simples deslumbramento diante da arte teatral, mas que ele já conhecia o teatro de Juan Del Encina autor de indiscutível qualidade.
Parvo: individuo com alguma perturbação mental.
Há basicamente, três tipos de personagens planas vicentinas, embora qualquer uma delas possam ser enquadradas em mais de uma categoria:

a) Personagens típicas: Tipos extraídos do cotidiano, representativos, estereótipos dos vários segmentos sociais, como o sapateiro, o fidalgo, o clérigo pecador, o escudeiro, o juiz, a adúltera, a freira, o ladrão, o camponês etc.
b) Tipos fantásticos: Seres que se originam da imaginação, da religiosidade mítica, como santos, anjos e demônios, estações do ano, deuses pagãos etc.
c) Tipos alegóricos: Personagens que representam instituições (coo a Igreja de Roma), vícios ou virtudes da sociedade. Por vezes, tais personagens confundem-se com as fantásticas. O Anjo e o Demônio, da peça Auto da Barca do Inferno, são, ao mesmo tempo, fantásticas, já que pertencem ao imaginário popular e simbolizam, respectivamente, o Bem e o Mal.
Há inúmeras tentativas de classificar as peças de Gil Vicente em categorias ou tipos. Segismundo Spina, em prefácio ao volume Obras-Primas do Teatro Vicentino, divide-as em quatro categorias:
a) Autos: Palavra que designava genericamente peças de teatro. Em Gil Vicente os autos versam sobre temas tradicionais de caráter religioso-moralizante ou pastoris: Auto Pastoril Castelhadno (1502),  Auto dos Reis Magos (1503), Auto da Fé (1510), Autos das Barcas (1517/18 – comporta a Trilogia das Barcas: Auto da Barca do Inferno, Auto da Alma, chamado impropriamente por alguns de Auto da Barca do Purgatório,e Auto da Glória), Auto de Mofina Mendes (1534), entre outros.
b) Teatro romanesco: Teatro cujos temas foram extraídos das novelas de cavalaria: Comédia de Rubena (1521), Comédio do Viúvo (1524), Amadis de Gaula (1533), entre outras.
c) Fantasias alegóricas: Nelas, as personagens representam instituições, íicios e virtudes sociais: Nau de Amores (1527), Auto da Lusitânia, entre outras.
d) Farsas: Peças de episódios, geralmente de caráter cômico, que apresentam um tipo social ou uma série deles: Farsa do Velho da Horta (1512),    Quem tem farelos (1515), Inês Pereira (1523), Juiz da Beira (1525), entre outras. A farsa de Inês Pereira apresenta um incidente curioso: foi feita a partir de um desafio lançado ao autor – um desafeto seu o acusou de plágio. Ele então pediu ao sujeito que lhe desse um tema e que, a partir dele, faria uma peça. O mote dado foi: “mais quero um asno que me carregue, que um cavalo que me derrube”. Inês Pereira é a resposta ao desafio.
O teatro vicentino é todo escrito em linguagem simples, em versos, predominantemente redondilhos maiores.

Há pouca documentação sobre Gil Vicente. Não sabemos com exatidão nem as datas de seu nascimento e morte. O ano que se convencionou dizer ser o de seu nascimento é o de 1465, e o de sua morte, por volta de 1537. Morreu antes de compilar suas obras, tarefa que coube a seu filho Luís Vicente, que retocou e reuniu as peças num volume chamado Compilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente, em 1562. Este trabalho é, no entanto, incompleto: faltam-lhe peças proibidas pela censura da Igreja e outras publicadas mais tarde; além do resgate impossível daquelas que foram escritas, encenadas e perdidas no tempo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário