A época
O
apogeu e a decadência
A
época – o apogeu e a decadência
Ocorre quanto à história dos deuses, em Os lusíadas, Antonio José Saraiva
valoriza essa unidade da narrativa mitológica que acaba por imprimir maior
unidade forma ao conjunto do poema:
“Formalmente, a unidade d’ Os lusíadas é estabelecida pela intriga
dos deuses. Baco, Vênus, Júpiter, Netuno, estão em cena desde o principio ao
fim do poema (descontando a introdução e o fecho), o qual abre com o concilio
dos deuses e termina na Ilha dos Amores. A ação consiste no seguinte: Vênus
ajudada por Marte, seu amante, pretende que os portugueses, seus protegidos,
cheguem ao fim da viagem; Baco, que entende que o Oriente é domínio seu,
esforça-se por perdê-los; para tanto concita contra eles animosidade dos povos
costeiros, consegue mover divindades marítimas a desencadearem uma tempestade
e, finalmente, induz os mouros de Calicut a conspirarem contra o Gama; mas
Vênus, vigilante, intervém junto de seu pai, Júpiter, mobiliza as ninfas do
mar, consegue apalaçar a tempestade; finalmente. Para premiar os nautas,
prepara-lhes, com a ajuda de seu filho Cupido, uma ilha de delicias, onde eles,
conubiando-se com as ninfas, se tornam, como elas, divinos e são admitidos à
visão do cosmos, Vasco da Gama à frente, que se torna esposo da própria deusa do mar.
A
ação mitológica, como se vê, dá unidade dramática à narrativa épica. Sem a
trama dos deuses, o poema ficaria reduzido a episódios soltos sobre assuntos
variados: históricos, geográficos. Líricos, cavalheirescos, etc.
Para
unir o mitológico ao histórico, Camões se vale de alguns estratagemas: os
deuses disfarçam-se de homens; quando eles intervêm na história, os homens
atribuem o fato a um milagre do Deus cristão; passagens, como a do gigante
Adamastor, podem ser lidas de duas maneiras coincidentes: o gigante mitológico
poderia ser confundido com uma montanha ou uma nuvem da tempestade – quando o
gigante chora, é a própria tempestade que deságua.
Um sopro Renascentista
Há
ação mitológica projeta-se todo o otimismo do período do Renascimento. Os
deuses mitológicos são generosos. Já os heróis históricos são guerreiros. Em
nome da propagação da fé cristã, propõem-se a ir à guerra, a matar em nome de
Deus. Entretanto, pela criatividade inventiva de Camões, esses deuses
mitológicos mais pacifistas ajudam os portugueses.
Assim,
o canto inventivo do poeta é que constrói o herói histórico: os homens de armas
são transformados em heróis através da
voz do poema. A voz do poeta realça e eleva para o plano divino a ação
histórica vivenciada pelos portugueses. Como diz Camões,
“Às
musas agradeça o nosso Gama
O
muito amor da pátria que as obriga
a
dar aos seus na lira nome e fama”.
A
inspiração do poeta vem de seu “amor da pátria”. Com toda a liberdade, ele
articula a ação das divindades mitológicas, de forma a sensibilizar o leitor
com concepções de vida mais plenas, que ultrapassam os limites muito estreitos
da tradição cristã da Idade Média.
Vem
da articulação entre o mítico e o histórico um sopro renascentista capaz de
levar personagens históricas a acreditar que podem ultrapassar limites, como os
deuses da mitologia. Pela ação de Vênus, Vasco da Gama suplanta Baco e consegue
ficar com Tétis, superando assim o gigante Adamastor que a amava. Os méritos
cabem sobretudo a Vênus e seus aliados da mitologia. Como a ação dessas
divindades foi inventada pelo poeta, Vasco da Gama deve sua glória ao canto
criativo de Camões.
Tudo
aparece em Os lusíadas como algo vivo; por ação das associações com a
mitologia, tudo é natural. A liberdade de criação acaba mesmo por romper
limites de ordem religiosa, em plena época da inquisição: Júpiter, o pai dos
deuses, aparece como amante da própria filha, em passagem poética de grande
erotismo.
Consciência História
Camões
dignifica a capacidade de o homem sonhar e de ultrapassar limites dele próprio.
Os lusíadas são um canto contra o
egoísmo e a vida rotineira, que dignifica os sonhos mais amplos do ser humano.
Além disso, são um canto de esperança, apontando para um sonho utópico dos
portugueses de seu tempo: a construção de um império mercantil. Vale-se, para
tanto, da mitologia e dos mitos: os portugueses seriam os sucessores dos
romanos, como estes foram os sucessores dos troianos.
Entretanto,
esse canto de esperança veio num momento de carência nacional: Portugal já
estava em decadência. Os lusíadas procuram
apresentar a grandiosidade que faltava ao país e Camões, através do poema,
sonhava alto para recuperar a esperança perdida e o impulso épico de seu povo,
perdido no passado. Procurou ter consciência crítica desse passado ao lado da
consciência de que o presente histórico que vivia era muito grave. A crise
atingia a todos os setores da vida nacional, deixando sua pátria.
“No
gosto da cobiça e na rudeza
Duma
austera, apagada e vil tristeza’.
Contra
a “cobiça” e “rudeza” dos homens, que levam a pátria a uma “austera, apagada e
vil tristeza” busca no sopro das musas do canto poético um homem heróico, com
valores políticos e éticos dignificantes. A “austera, apagada e vil tristeza”
estava na tirania, na opressão política vivida pelos portugueses, e na
existência de uma nobreza parasita, ociosa, por ele criticada no poema. Sua
pretensão era que seu canto fosse ouvido por todos: pelo rei, a quem dedica o
poema (D. Sebastião) e pelo povo em geral.
Textos comentados
A
obra épica
O
ENREDO DE OS LUSÍADAS
Canto l
– O
poema inicia com a voz do poeta, que é o principal narrador de Os lusíadas. Além dele, aparecem outros
narradores. Faz parte deste canto a proposição do poema, a invocação às ninfas
do Tejo e a dedicatória a D. Sebastião. O inicio da narração história ocorre
com a armada de Vasco da Gama a caminho de Moçambique. Inicio in media res, isto é, no meio das coisas
(com a história já iniciada). Ocorre o Concilio dos Deuses para julgarem o
destino dos portugueses: Baco é hostil, Vênus e Marte os defendem. Marte
propõe, e é aceito por Júpiter, que Mercúrio seja enviado para guiar os portugueses.
Baco incita o rei da Ilha de Moçambique contra os navegadores. Vasco da Gama
prossegue a viagem até Mombaça (Quênia atualmente).
Canto ll
Continuam as maquinações de
Baco, insuflando os mouros contra os portugueses. Estes têm sempre a
intercessão de Vênus a seu favor. Vasco da Gama implora proteção celeste,
dirigindo-se ao Deus cristão. Vênus intercede junto a Júpiter, que a acalma,
profetizando um futuro glorioso para os navegantes. Mercúrio, através de um
sonho, aconselha Vasco da Gama a partir. A armada chega a Melinde (cidade hoje
pertencente ao Quênia, na África), cujo rei pede a Vasco da Gama que lhe conte
a história de seu país.
Canto lll
Narração de Vasco da Gama ao
rei de Melinde: a história da primeira dinastia portuguesa. Fazem parte de seu
relato, entre outros, o episódio de Egas Moniz, a batalha do Salado, o episódio
de Inês de Castro.
Canto lV
Narração de Vasco da Gama ao
rei de Melinde: história da segunda dinastia até o inicio da viagem. A ascensão
do mestre de Avis a rei de Portugal (D. João l) e os sonhos proféticos de D.
Manuel sobre a conquista das Índias. Aparecem ainda neste canto os preparativos
da viagem de Vasco da Gama, o embarque e o episódio do Velho do Restelo, que
condena o sentido político e moral da viagem.
Canto V
Continua
a narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde: viagem da armada de Lisboa a
Melinde. Integram essa narrativa os episódios do fogo de Santelmo, da tromba
(tempestade) marítima, da aventura de Fernão Veloso e do gigante Adamastor.
Camões interrompe, às vezes, a narração de Vasco da Gama. Neste canto, por
exemplo, lamenta que os grandes navegantes não gostem de poesia.
Canto Vl
A
frota parte de Melinde, com um piloto que os guiaria à Índia. Baco pede ajuda
aos deuses do mar: Netuno ordena a Éolo (deus dos ventos) que desencadeie uma
tempestade. Intervenção salvadora de Vênus: com auxilio das ninfas, estas
seduzem os ventos. Chega-se a Calicut (Índia). Nova interrupção de Calmões, que
discorre sobre os caminhos da honra e da fama: critica os nobres ociosos.
Canto
Vll
Apreciações
sobre a política contemporânea a D. Manuel. Descrição da Índia. Desembarque em
Calicut e entrevista com samorim (rei de Calicut). O catual (regedor) visita a
frota e pede que Paulo da Gama explique o significado das figuras pintadas nas
bandeiras. Camões queixa-se de sua vida miserável e das perseguições que sofreu.
Canto
Vlll
Explicações
de Paulo da Gama: as figuras celebram grandes vultos da história portuguesa.
Faz o relato em ordem cronológica. Baco, em sonho, insufla um sacerdote
muçulmano contra os portugueses. Vasco da Gama é preso e resgatado a troco de
mercadoria. Considerações de Camões sobre o poder do dinheiro e dos malefícios
que ele origina.
Canto
lX
Os catuais
procuram retardar a frota portuguesa, aguardando as naus que chegariam de Meca,
mas a armada parte em sua viagem de volta. Vênus resolve recompensar os
portugueses por seus feitos heroicos. Pede o auxilio de Cupido e da Fama e
prepara a Ilha dos Amores para recebê-los. As ninfas: concentram-se nela todas
as belezas naturais. Os portugueses possuem as ninfas. Tétis, a paixão do
gigante Adamastor, coube a Vasco da Gama.
Canto
X
Banquete
no palácio de Tétis, onde uma bela ninfa canta a história futura dos portugueses
na Índia. Tétis apresenta a Vasco da Gama a “Máquina do Mundo”: descrição do universo e da Terra. Os portugueses
continuam viagem e chegam à pátria. Considerações finais de Camões sobre a má
recompensa ordinariamente obtida pelos que servem à pátria, e em ralação a si
próprio: ele é pequeno poeta mas competente. Exorta D. Sebastião a ser um bom
rei e a conquistar o Marrocos.
VIAGEM
DE VASCO DA GAMA (1497 a 1499)
Postado Por: Maria Magalhães
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