terça-feira, 7 de julho de 2015

A época – o apogeu e a decadência

A época
O apogeu e a decadência


A época – o apogeu e a decadência

Ocorre quanto à história dos deuses, em Os lusíadas, Antonio José Saraiva valoriza essa unidade da narrativa mitológica que acaba por imprimir maior unidade forma ao conjunto do poema:

“Formalmente, a unidade d’ Os lusíadas é estabelecida pela intriga dos deuses. Baco, Vênus, Júpiter, Netuno, estão em cena desde o principio ao fim do poema (descontando a introdução e o fecho), o qual abre com o concilio dos deuses e termina na Ilha dos Amores. A ação consiste no seguinte: Vênus ajudada por Marte, seu amante, pretende que os portugueses, seus protegidos, cheguem ao fim da viagem; Baco, que entende que o Oriente é domínio seu, esforça-se por perdê-los; para tanto concita contra eles animosidade dos povos costeiros, consegue mover divindades marítimas a desencadearem uma tempestade e, finalmente, induz os mouros de Calicut a conspirarem contra o Gama; mas Vênus, vigilante, intervém junto de seu pai, Júpiter, mobiliza as ninfas do mar, consegue apalaçar a tempestade; finalmente. Para premiar os nautas, prepara-lhes, com a ajuda de seu filho Cupido, uma ilha de delicias, onde eles, conubiando-se com as ninfas, se tornam, como elas, divinos e são admitidos à visão do cosmos, Vasco da Gama à frente, que se torna  esposo da própria deusa do mar.
A ação mitológica, como se vê, dá unidade dramática à narrativa épica. Sem a trama dos deuses, o poema ficaria reduzido a episódios soltos sobre assuntos variados: históricos, geográficos. Líricos, cavalheirescos, etc.
Para unir o mitológico ao histórico, Camões se vale de alguns estratagemas: os deuses disfarçam-se de homens; quando eles intervêm na história, os homens atribuem o fato a um milagre do Deus cristão; passagens, como a do gigante Adamastor, podem ser lidas de duas maneiras coincidentes: o gigante mitológico poderia ser confundido com uma montanha ou uma nuvem da tempestade – quando o gigante chora, é a própria tempestade que deságua.

Um sopro Renascentista

Há ação mitológica projeta-se todo o otimismo do período do Renascimento. Os deuses mitológicos são generosos. Já os heróis históricos são guerreiros. Em nome da propagação da fé cristã, propõem-se a ir à guerra, a matar em nome de Deus. Entretanto, pela criatividade inventiva de Camões, esses deuses mitológicos mais pacifistas ajudam os portugueses.
Assim, o canto inventivo do poeta é que constrói o herói histórico: os homens de armas são transformados em heróis  através da voz do poema. A voz do poeta realça e eleva para o plano divino a ação histórica vivenciada pelos portugueses. Como diz Camões,
“Às musas agradeça o nosso Gama
O muito amor da pátria que as obriga
a dar aos seus na lira nome e fama”.

A inspiração do poeta vem de seu “amor da pátria”. Com toda a liberdade, ele articula a ação das divindades mitológicas, de forma a sensibilizar o leitor com concepções de vida mais plenas, que ultrapassam os limites muito estreitos da tradição cristã da Idade Média.
Vem da articulação entre o mítico e o histórico um sopro renascentista capaz de levar personagens históricas a acreditar que podem ultrapassar limites, como os deuses da mitologia. Pela ação de Vênus, Vasco da Gama suplanta Baco e consegue ficar com Tétis, superando assim o gigante Adamastor que a amava. Os méritos cabem sobretudo a Vênus e seus aliados da mitologia. Como a ação dessas divindades foi inventada pelo poeta, Vasco da Gama deve sua glória ao canto criativo de Camões.

Tudo aparece em Os lusíadas como algo vivo; por ação das associações com a mitologia, tudo é natural. A liberdade de criação acaba mesmo por romper limites de ordem religiosa, em plena época da inquisição: Júpiter, o pai dos deuses, aparece como amante da própria filha, em passagem poética de grande erotismo.

Consciência História

Camões dignifica a capacidade de o homem sonhar e de ultrapassar limites dele próprio. Os lusíadas são um canto contra o egoísmo e a vida rotineira, que dignifica os sonhos mais amplos do ser humano. Além disso, são um canto de esperança, apontando para um sonho utópico dos portugueses de seu tempo: a construção de um império mercantil. Vale-se, para tanto, da mitologia e dos mitos: os portugueses seriam os sucessores dos romanos, como estes foram os sucessores dos troianos.
Entretanto, esse canto de esperança veio num momento de carência nacional: Portugal já estava em decadência. Os lusíadas procuram apresentar a grandiosidade que faltava ao país e Camões, através do poema, sonhava alto para recuperar a esperança perdida e o impulso épico de seu povo, perdido no passado. Procurou ter consciência crítica desse passado ao lado da consciência de que o presente histórico que vivia era muito grave. A crise atingia a todos os setores da vida nacional, deixando sua pátria.
“No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza’.
Contra a “cobiça” e “rudeza” dos homens, que levam a pátria a uma “austera, apagada e vil tristeza” busca no sopro das musas do canto poético um homem heróico, com valores políticos e éticos dignificantes. A “austera, apagada e vil tristeza” estava na tirania, na opressão política vivida pelos portugueses, e na existência de uma nobreza parasita, ociosa, por ele criticada no poema. Sua pretensão era que seu canto fosse ouvido por todos: pelo rei, a quem dedica o poema (D. Sebastião) e pelo povo em geral.

Textos comentados
A obra épica

O ENREDO DE OS LUSÍADAS

Canto l

– O poema inicia com a voz do poeta, que é o principal narrador de Os lusíadas. Além dele, aparecem outros narradores. Faz parte deste canto a proposição do poema, a invocação às ninfas do Tejo e a dedicatória a D. Sebastião. O inicio da narração história ocorre com a armada de Vasco da Gama a caminho de Moçambique. Inicio in media res, isto é, no meio das coisas (com a história já iniciada). Ocorre o Concilio dos Deuses para julgarem o destino dos portugueses: Baco é hostil, Vênus e Marte os defendem. Marte propõe, e é aceito por Júpiter, que Mercúrio seja enviado para guiar os portugueses. Baco incita o rei da Ilha de Moçambique contra os navegadores. Vasco da Gama prossegue a viagem até Mombaça (Quênia atualmente).
Canto ll
Continuam as maquinações de Baco, insuflando os mouros contra os portugueses. Estes têm sempre a intercessão de Vênus a seu favor. Vasco da Gama implora proteção celeste, dirigindo-se ao Deus cristão. Vênus intercede junto a Júpiter, que a acalma, profetizando um futuro glorioso para os navegantes. Mercúrio, através de um sonho, aconselha Vasco da Gama a partir. A armada chega a Melinde (cidade hoje pertencente ao Quênia, na África), cujo rei pede a Vasco da Gama que lhe conte a história de seu país.
Canto lll
Narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde: a história da primeira dinastia portuguesa. Fazem parte de seu relato, entre outros, o episódio de Egas Moniz, a batalha do Salado, o episódio de Inês de Castro.
Canto lV
Narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde: história da segunda dinastia até o inicio da viagem. A ascensão do mestre de Avis a rei de Portugal (D. João l) e os sonhos proféticos de D. Manuel sobre a conquista das Índias. Aparecem ainda neste canto os preparativos da viagem de Vasco da Gama, o embarque e o episódio do Velho do Restelo, que condena o sentido político e moral da viagem.
Canto V
Continua a narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde: viagem da armada de Lisboa a Melinde. Integram essa narrativa os episódios do fogo de Santelmo, da tromba (tempestade) marítima, da aventura de Fernão Veloso e do gigante Adamastor. Camões interrompe, às vezes, a narração de Vasco da Gama. Neste canto, por exemplo, lamenta que os grandes navegantes não gostem de poesia.
Canto Vl
A frota parte de Melinde, com um piloto que os guiaria à Índia. Baco pede ajuda aos deuses do mar: Netuno ordena a Éolo (deus dos ventos) que desencadeie uma tempestade. Intervenção salvadora de Vênus: com auxilio das ninfas, estas seduzem os ventos. Chega-se a Calicut (Índia). Nova interrupção de Calmões, que discorre sobre os caminhos da honra e da fama: critica os nobres ociosos.
Canto Vll
Apreciações sobre a política contemporânea a D. Manuel. Descrição da Índia. Desembarque em Calicut e entrevista com samorim (rei de Calicut). O catual (regedor) visita a frota e pede que Paulo da Gama explique o significado das figuras pintadas nas bandeiras. Camões queixa-se de sua vida miserável e das perseguições que sofreu.
Canto Vlll
Explicações de Paulo da Gama: as figuras celebram grandes vultos da história portuguesa. Faz o relato em ordem cronológica. Baco, em sonho, insufla um sacerdote muçulmano contra os portugueses. Vasco da Gama é preso e resgatado a troco de mercadoria. Considerações de Camões sobre o poder do dinheiro e dos malefícios que ele origina.
Canto lX
Os catuais procuram retardar a frota portuguesa, aguardando as naus que chegariam de Meca, mas a armada parte em sua viagem de volta. Vênus resolve recompensar os portugueses por seus feitos heroicos. Pede o auxilio de Cupido e da Fama e prepara a Ilha dos Amores para recebê-los. As ninfas: concentram-se nela todas as belezas naturais. Os portugueses possuem as ninfas. Tétis, a paixão do gigante Adamastor, coube a Vasco da Gama.
Canto X
Banquete no palácio de Tétis, onde uma bela ninfa canta a história futura dos portugueses na Índia. Tétis apresenta a Vasco da Gama a “Máquina do Mundo”: descrição do universo e da Terra. Os portugueses continuam viagem e chegam à pátria. Considerações finais de Camões sobre a má recompensa ordinariamente obtida pelos que servem à pátria, e em ralação a si próprio: ele é pequeno poeta mas competente. Exorta D. Sebastião a ser um bom rei e a conquistar o Marrocos.

VIAGEM DE VASCO DA GAMA (1497 a 1499)

Postado Por: Maria Magalhães



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