segunda-feira, 6 de julho de 2015

Arlete Nogueira da Cruz


O andamento intencionalmente vagaroso, em versos longos, faz com que o leitor, sem esforço aparente, sem perceber é invadido pelo poema. Ele, ao revelar uma velha mendiga solta na cidade de São Luís em busca da caridade alheia, conduz um olhar para a decadência da própria cidade, deste país e da sociedade como um todo, sempre voltada para o conforto pessoal e individual, o que, sem intenção, estimula a barbárie, acelera a marginalidade. A velha mendiga é o ser humano inadaptado à vida da cidade, excluída de todo e qualquer convívio social. Nestes termos, a cidade é conspira com o processo de exclusão social e da decadência física e moral da mendiga, parceira de seu empobrecimento. 
Dessa forma, o poema de Arlete, bem expresso, com excelente domínio verbal e rítmico, é uma verdadeira obra-prima e, de fato, está longe dos valores de um poema socialmente “engajado”, devido ao esmero no trabalho de sua elaboração.

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Em a “A Litania da Velha”, poema que a autora apresenta como "uma declaração de amor a São Luís do Maranhão".
O livro “Litania da Velha” possui em seus versos o poder de transportar o leitor ao imaginário cinematográfico, e que lança lumes da realidade às entranhas da obra, poema de Arlete, que foi publicado pela primeira vez em 1996, após outras reedições, eis que surge superior acabamento, com adaptação voltada mais para uma proposta comercial.
A poetisa e escritora Arlete Nogueira da Cruz, seu esposo, o poeta Nauro Machado, e o filho Frederico Machado nos presenteiam também, com o trabalho Curta Poesia, em forma de “box”, inseridos texto e imagem. Obra, de três incontestáveis artistas, cada um na sua individualidade primorosa, sem dever nada e nem a ninguém, produzida no Maranhão.
Litania, ladainha, prece responsiva, oração-súplica a Deus, aos deuses, intermediária de mundos ou ao menos recurso daqueles que ainda acreditam fazer ouvir sua cantilena em algum lugar do outro lado, onde o divino está assentado, para sobrealém destes que um dia foram desgraçadamente separados, desterrados do Paraíso, mas que ainda acreditam contar com alguma misericórdia daquele que está também eternamente disposto a atender, como sempre esteve. Assim utilizarem-se, neste tipo de oração – a ladainha – da repetição, da reiteração, do refrão-chantagem, a prontamente cumprir aquela recomendação em forma de parábola a todos os desamparados súplices: “se o amigo não te dá por amizade, certamente te dará por insistência”, repetição da qual Arlete se utiliza magistralmente, simulando-a não na verbalização em si, mais na intercessão, que nada se pede explicitamente, e sim na estruturação poética, frasal e sintagmática dos versos, quase a lembrar aquele paralelismo dos menestréis medievais, quase a lembrar porque o avançar deste poema em curso, no espaço e no tempo, é de outra estirpe: nada cruza, nem rima, nem faz refrão, senão nos passos (enumerativos) que dirigem cabalmente sua personagem lírica para a exaustão e para a morte.
Litania no remete a questionamentos, a um olhar mais critico por paradigmas escondidos, na realidade desta cidade, cujo inferno e abandono podem ser sentidos na carne de sua personagem, a velha, anônima dos anônimos, que, pela dor, padece no silêncio no descaso. Um olhar que traça uma referência, sublimadamente: “O poeta convida o intelectual a se tornar porta voz da cidade e de seus habitantes socialmente acometidos de afasia”. Ora, quem era no universo da tragédia grega o porta-voz coletivo da cidade acometida de peste, senão o coro? Seu poema: “lite”, litania, elegia aos troços, às ruínas, aos destroçados:

“A sarjeta traga, destroçando o que traga, levando os destroços.
O vento sibila um enigma que se converte em profundo silêncio.”

As pessoas estão ausentes ocupadas demais em seus mundos, sem perceber apesar de olhar, porém não a enxergam. Estão à espreita, esperando apenas a sua queda, para que não reste pedra sobre pedra, aproveitando-se da derrocada, que bicho morto e ruína, é bem mais rentáveis nas mãos de curtidores. Por isso, é melhor deixar cair e apodrecer.
A arrogância dos homens espreita e apressa a gentil despedida.
A piedade é injúria que a velha acata com a gratidão de quem deve.

E mais adiante:
Os filhos da pedra investigam de longe o temor dos vencidos.

Oração, súplica, intermediária de mundos. E falando de elegia, lamento, canto fúnebre dos poetas gregos, de dor ou tristeza pela morte de um ente querido, não se eximindo também, em sua meditação de tom grave, de um certo “ensinamento” e de uma exortação. A elegia, cuja forma estrófica preferida era o dístico – exatamente como os estabelecidos no Litania da Velha – é similar tanto da epopéia quanto da tragédia, remetendo ao que conserva a liricidade: o coro.
A poeta coloca numa relação polifônica, hiper-simbólica, o mundos cristão e grego. E não há blasfêmia no reino da poesia, porque ela vai além da cisão tão chucra e mesquinha que permitimos aos nossos olhos.
A voz condutora que ressoa nesse poema narrativo, disfarça sua subjetivamente e coletividade, estabelece um contraponto entre “um outro que fala”, no poema, e um “eu que se apassiva diante das palavras”, e que, a nosso ver, introduz em nível discursivo o contraponto entre mito e razão, presente, lembrança e memória. Revelados em seus versos iniciais:

O tempo consome o silêncio e mastiga a feroz injustiça.
O campo se perde embebido em jenipapos para a manhã sufocada.

Não há memória sem o ressoar subjetivo das imagens da lembrança, e, pensar o tempo é história. Aparentemente estamos diante do tempo mítico, e não fora da injustiça, denunciada pela voz poética da Litania, que nos leva do mundo dos deuses ao mundo dos homens, os quais, uma vez derruídos, destroçados, restarão injustiçados para sempre, pois neste chão do dia-a-dia, o tempo é o da história, e que uma vez morto, o que hiperfatura essa injustiça em toda a potência de sua ferocidade.
Este mundo torna-se determinante e determinado, substância e movimento, forma, movimento e “fim”, como, a autora demonstra na representação de um sujeito desamparado aos pés de um mundo contra o qual não possui armas, nem a palavra para recorrer ao que foi dissipado, e não está lá, somente uma sombra da própria alma, talvez nunca estivesse.

A sacola esconde improvisos da vida e ganhos equivocados.

Uma ordem em que procura organizar seu universo, primeiramente sobre aqueles mesmos objetos que para uns são objetos-nada, e para outros serão a afirmação, de alguma realidade, uma tentativa de preservar-se da inexistência completa.


VIDA E OBRA DE ARLETE NOGUEIRA DA CRUZ MACHADO


Hoje, poetisa contemporânea maranhense nasceu na estação ferroviária de Cantanhede, no interior do Maranhão em 1936. Onde iniciou seus estudos. Seu pai, Raimundo Nogueira da Cruz, foi Agente da Estação da Estrada de Ferro São Luís/Teresina e sua mãe, Enoi Simão Nogueira da Cruz, poetisa e cronista que escrevia com o nome literário de Márcia de Queiroz e autora de um livro. Poemas, organizado e publicado pela filha, em l993, numa homenagem póstuma à mãe. A poetisa é casada com o poeta Nauro Machado e tem um filho Frederico da Cruz Machado.
Arlete iniciou-se nas letras ainda muito pequena, com oito anos escreveu um pequeno conto intitulado de “Dois velhinhos”.
Quando tinha 12 anos sua família transferiu-se para São Luís onde prosseguiu seus estudos. Fez o curso colegial no Colégio Rosa Castro e o antigo científico no Liceu Maranhense. Licenciada em Filosofia pela UFMA, cursou o Mestrado em Filosofia Contemporânea na PUC - Rio de Janeiro, mestra em literatura e conferencista. Merece destaque na literatura maranhense, como poetisa, contista, romancista, É professora aposentada da UFMA e exerceu vários cargos na área da Cultura onde procurou desenvolver importante trabalho a favor das artes no Maranhão, trabalho na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde lecionou Filosofia Contemporânea.
Entre as décadas 60, 70 e 80 teve incursões no jornalismo e relevante atuação na vida cultural maranhense.
Seu primeiro livro “A parede”, lançado em 1961, foi escrito quando tinha menos de 20 anos. Josué Montello, que descobriu esse livro numa viagem que fez a São Luís, em 1959, inscreveu-o na Academia Brasileira de Letras, onde obteve o terceiro lugar no Prêmio Júlia Lopes de Almeida, em 1960.

Suas publicações:

1. A parede (romance) com três edições: 1961, 1993, 1998
2. Cartas da paixão (pequenos ensaios filosóficos) – com duas edições: 1969, 1998.
3.Compasso binário (romance) – com duas edições: 1972, 1998
4. Canção das horas úmidas (poesia) – com uma edição: 1975
5. Litania da Velha (poema) – com quatro edições: 1995, 1997, 1999, 2002.
6. Contos inocentes (contos) – com duas edições: 2000, 2001.
7. Em 1998, graças ao empenho de Ivan Junqueira, sua prosa reunida com o nome de Trabalho Manual (Imago Editora, Rio, 1998), através de um convênio entre a Biblioteca Nacional e a Universidade de Mogi das Cruzes.


O POEMA LITANIA DA VELHA


Arlete Nogueira da Cruz importante poetisa e literária maranhense em sua obra “Litania da velha” discorre sobre a história vivenciada por uma velha numa alusão direta a decadência de São Luís em especial do seu Centro Histórico, antes pungente e agora em progressiva deterioração.
A autora compôs seu poema com amplos versos livres sob a forma de litania: Forma erudita de ladainha, na qual procura elevar o profano à dimensão de sagrado para revelar a sacralidade oculta dos seres e das coisas, apesar do estado de decadência em que se encontram. O poema é descritivo – narrativo, mas em toda sua extensão é recheado de lirismo e figuras de linguagem, recurso que enriquece e redimensiona novos significados para a teia poética.
A arte não reproduz o visível. Torna-o visível. (Paul Klee).


O trecho inicial do Poema Litania da Velha revela a sensibilidade da autora; ela capta do silêncio das velhas ruas, e seus transeuntes, a memória do passado presente nos casarões centenários que se refletem nos passos da velha mendiga, palco onde ocorrem profundas transformações sociais nas últimas décadas. Para tanto, a autora utilizou-se dos elementos físicos e simbólicos para produzir um verdadeiro mosaico de ideias-imagens criteriosamente selecionadas do passado e depuradas pelo filtro do presente, conforme aponta Janice Theodoro (1992, p.86).
Na imagem da velha, descrita em versos, o passado perpassa o presente. Seguindo as trilhas que ela percorre em passo incerto, vislumbram-se nos fragmentos, ecos das vozes perdidas no tempo, que o Projeto Reviver não conseguiu revitalizar. As glórias do passado histórico já não cintilam; presente e passado se fundem; as vozes emudecidas de tantos personagens não ecoam mais, não se deixam ouvir. As lembranças afloram, mas tornam-se invisíveis perante o olhar insensível da vida cotidiana.
O tom denso e dramático do poema aprofunda-se em impressionante alternância de cores, luz e sombras, no jogo de palavras que tecem essa poesia ladainha e revela o processo de crescente degradação em que se encontram os habitantes da cidade e a velha andarilha em sua decrepitude. Pois seu envelhecimento está ligado ao destino dos que habitam esse espaço. O poema suscita imagens de homens e mulheres que hoje vivem em “cortiço”, compartilhando suas misérias e flagelações; outrora os casarões ostentavam riqueza. Como ontem, quantos não estão também condenados à solidão e revivem em silêncio suas tristes recordações?

Silêncio Ruínas imagens desbotadas ecos mudos no tempo.
O tempo consome o silencio e mastiga vagarosa a feroz injustiça.
O campo se perde embebido em jenipapos para a manhã sufocada.
Os bois da infância ruminam sua paciência e espreitam essa audácia.
- O tempo dói na ferida aberta da recordação [...]

Esses versos carregam forte carga semântica. O verbo mastigar revela a violência da denuncia poética – a indiferença do homem pelo seu semelhante nesta sociedade consumista que só almeja lucro. A velha e o tempo tornaram-se companheiros mudos, pois não compartilham lembranças. A arte de contar histórias já não é valorizada, não se trocam mais experiências.
- O tempo dói na ferida aberta da recordação [...]

A velha peregrina, em passos lentos, segue trilhas de pedras no seu vai e vem cotidiano, absorta em suas recordações e passa despercebida pela cidade, que também silenciosa não a vê.

As casas, á sua personagem são cáries de dentes chorando o seu flúor [...]
A criança brinca no esgoto que ecoa também no seu sonho pequeno. [...]
O café dado á velha devolve a ilusão de coisas estáveis [...]
A rua de novo, é o único caminho que a leva para a passagem das horas.[...]

Nesta seqüência de ações, vê-se a luta da velha pela sobrevivência. Os versos, o eu lírico manifesta-se, a autora comunga ações com a procura pela estabilidade, expressa no café da manhã, coisa que há muito a velha já perdeu! A força poética traz visibilidade á crueldade do mundo, bem visível nas injustiças sociais.

“Os dedos são ímãs cantando do lixo a pompa dos dias.” [...]

Em suas andanças, a mendiga percorre os descaminhos da cidade morta e se depara com os companheiros de pesar, como o caso do bêbado que cochila babando e não percebe sua presença e do garoto que brinca no esgoto.
O poema dá unidade a essa pluralidade dos seres anônimos e desprotegidos como da vida. A poetisa empresta sua voz para falar pelos desvalidos, que sucumbem sob o peso da própria miséria. Nesse contexto, o patrimônio histórico e humano deteriora-se. É visível a ruína da dignidade humana. Percebe-se então, que a força propulsora da poesia geralmente origina-se de um problema de natureza existencial, como a velha que no seu caminhar, chega bem longe, mas não se afasta da sua profunda solidão.
A mendiga continua só. O Homem é um ser social, porém quando se rompem as relações, ele perece. Sozinho, sua existência perde o sentido.

“O olhar conformado desconfia do tempo que denúncia a tragédia.” 

“As veias lhe saltam sob a pele das mãos como afluentes sem rumo.” 

“A sacola desce sobre a roupa molhada atropelando-lhes os passos.” 

“O rosto congela uma queixa suave que se expande em ternura.” 

“A imagem no chão se desfaz, espalhando sacola e presentes.” 

“Os filhos de pedra investigam de longe o temor dos vencidos.” 

“O vento sibila um enigma que se converte em profundo silêncio.”

A leitura dos versos consegue tocar a sensibilidade dos leitores e trazer à tona uma confusão de sentimentos. Fica-se perplexo diante de tanta indiferença, frente às misérias que nos rodeiam. A velha sucumbe na enxurrada da chuva alguns olham e passam indiferentes.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após essa riquíssima pesquisa o que ganhamos foi a tarefa de transmitir às gerações futuras o que a velha contava de si mesma e de sua cidade quando ainda havia lucidez e ouvintes.
São Luís possui grupos de imagens ideias denominando-a cidade da memória que divulga a simbologia do centro histórico vinculado pelas agências com interesse empresariais. A expressão cidade sem memória utilizada para obter aproximação dos seus moradores dispersos pela vivência de casos e histórias caóticas e até violentas já guardadas no passado, mas é possível reconhecer alguns desses eventos pela cidade em seus becos, casarões, praças da velha/nova São Luís.
Enquanto a velha sozinha sem família e o chão por onde passou, confundindo-se com os desalentos e enganos cravados na sua memória.

Assim como a velha, caem também às ruínas da cidade e nos esgotos escoam os sonhos até das crianças. Essa São Luís sem memória, indiferente ao sofrimento precisa erguer-se. “Só a poesia tem a força capaz de resgatar essa perda e deter o processo da morte iminente” Só a magia poética pode transformar a feiúra em beleza, para restaurar nossa alma como faz o poema Litania que nos leva a redescobrir os encantos da nossa cidade. Com a força da poesia pode-se gritar os desmandos do homem, transformando a realidade ultrajada, para devolver a dignidade aos desvalidos. Esse é o real papel da poesia.

Postado por: Maria Magalhães

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